sábado, 7 de maio de 2011

Verônica



A neblina fria e suave daquela noite encobria a visão de Verônica a sua frente. Mas ela olhava para seus pés, descalços, um a um a percorrer a calçada suja da rua de sua casa, enquanto carregava seus sapatos em uma mão e o cigarro aceso em outra. O vestido ajustado ao corpo, preto e simples, revelava apenas pela leve sombra das luzes baixas da cidade uma cintura quase encoberta por um casaco que descia até os seus joelhos. A meia fina e trabalhada em detalhes assimétricos estava rasgada (tanto quanto sentia que estava ela própria). Carregava um passo sobre o outro, indagando-se se era possível sua maquiagem estar mais borrada  que sua dignidade nesse momento - exatamente nesta ordem. Acreditava ela que, se sua rua pudesse falar, gritaria por socorro. Tornara-se uma notívaga ligeiramente dopada e sem companhia para voltar para casa. Seu sentimento de urgência de sentir, de amar, de trazer café na cama para alguém e no fim do dia receber uma ligação de "boa noite, meu bem" perdeu-se em algum dos lençóis de seus amantes. Não parecia se importar em ficar quando a lua já se fosse. Colocara seu corpo em cada bar da cidade com o preço de deixar seu coração em casa. E apenas lá, ao encontrá-lo, o encarava com pupilas enormes de olhos que já não sabiam mais chorar e tirava suas meias rasgadas. Deitava na cama, acendia outro cigarro, e dormia.

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