Chovia. Já passava de meio-dia. Eram gotas finas e frias, e o cabelo de Sofia estava a cada passo mais molhado. Seu rosto todo estava molhado. Não fosse o fato de estar ligeiramente vermelho ninguém perceberia que estava na verdade chorando. Misturavam-se às lágrimas as gotas de chuva e escorriam. Finas, frias e amargas.
A cada passo ávido em que as solas de suas sapatilhas pousavam sob o chão enlameado para chegar em qualquer lugar (instintivamente a sua própria casa), Sofia repassava em sua mente confusa minuto por minuto daquela fatídica manhã. O susto repentino ao acordar. Pressão estranha no peito. O ato impensado, instintivo e involuntário. Errado? Talvez. Mas o que a intrigava é como ela pôde ter tanta certeza de que havia algo errado. Às vezes até se perguntava se não seria melhor não ser tão sensitiva. Mas como Sofia poderia negar a si própria? Terá sido mesmo apenas coincidência? O dia inteiro havia sido uma bola de coincidências. E não parecia haver motivos precedentes para tais preocupações, pois o dia anterior havia sido tão lindo que ela repousou delicamente em sua cama com um sorriso feliz no rosto. Muito feliz. E veja só: poucas horas mudaram tudo.
Ao chegar em casa, molhada e cansada, constatou (por óbvio) que estava sozinha. Mas, naquela manhã, Sofia estava particularmente mais sozinha que nunca. E em dizer que, poucos minutos depois de chegar, Sofia chegou a vestir uma roupa para voltar, numa tentativa infantil de esquecer as suas últimas 4 ou 5 horas . Desistiu em um rompante de sanidade e falou para si própria no espelho, como se estivesse a ensaiar para uma peça, apontando e gesticulando: "Não importa o quanto você acerte e tente fazer o melhor, haverá sempre um foda-se bem grande para você no primeiro erro. E, como se não bastasse, seu erro irá cobrir todas as coisas que você acredita (e sabe) que não estão no seu devido lugar." Respirou profundamente para segurar o pranto que insistia em retornar, olhou para os pés, levantou suavemente a cabeça e olhou com firmeza no espelho para dizer: "Papéis arquivados como mortos nunca deveriam sair do arquivo."
E, assim, jogou suas coisas no chão e foi se deitar. Ainda sozinha. Apenas um camundongo que acabara de ver passar pelo vão da porta. As lágrimas não mais contidas de Sofia são apenas mais um eco no escuro. E o "tu tu tu" do telefone.
-2008

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