terça-feira, 10 de maio de 2011

Essa não é uma história de amor.


Ela não queria ir embora. Não agora que havia encontrado em seus braços outros tão dispostos a acolhê-la nas noites frias. Mas não parecia certo que ali permanecesse, pois havia uma linha muito fina de intolerância pairando entre suas palavras. Havia uma tensão conhecida envolvendo os dois corpos que se apertavam um contra o outro como se não mais se importassem com a possível efemeridade daquele momento. Era talvez a última chance de sentir a vibração peculiar que sabia existir somente entre os dois. Não era amor. Nem ao menos sabe se algum dia foi. Mas também não era apenas mais uma paixão (e tinha consciência de que nunca fora apenas isso). Era o "ela e ele" que somente os dois poderiam entender, porém jamais explicar nem mesmo um ao outro. Tudo o que se podia explicar, explicava-se no momento em que um olhar descia sobre o outro e entrelaçavam-se as mãos com doçura. O momento em que eram apenas um. Mas compreendiam que, tão logo notassem, já eram dois. Cada um em suas camas. Cada um com seus amantes. Cada um a buscar um norte que,  inevitavelmente, se perdia toda vez que arriscavam encontrá-lo juntos. 

sábado, 7 de maio de 2011

Verônica



A neblina fria e suave daquela noite encobria a visão de Verônica a sua frente. Mas ela olhava para seus pés, descalços, um a um a percorrer a calçada suja da rua de sua casa, enquanto carregava seus sapatos em uma mão e o cigarro aceso em outra. O vestido ajustado ao corpo, preto e simples, revelava apenas pela leve sombra das luzes baixas da cidade uma cintura quase encoberta por um casaco que descia até os seus joelhos. A meia fina e trabalhada em detalhes assimétricos estava rasgada (tanto quanto sentia que estava ela própria). Carregava um passo sobre o outro, indagando-se se era possível sua maquiagem estar mais borrada  que sua dignidade nesse momento - exatamente nesta ordem. Acreditava ela que, se sua rua pudesse falar, gritaria por socorro. Tornara-se uma notívaga ligeiramente dopada e sem companhia para voltar para casa. Seu sentimento de urgência de sentir, de amar, de trazer café na cama para alguém e no fim do dia receber uma ligação de "boa noite, meu bem" perdeu-se em algum dos lençóis de seus amantes. Não parecia se importar em ficar quando a lua já se fosse. Colocara seu corpo em cada bar da cidade com o preço de deixar seu coração em casa. E apenas lá, ao encontrá-lo, o encarava com pupilas enormes de olhos que já não sabiam mais chorar e tirava suas meias rasgadas. Deitava na cama, acendia outro cigarro, e dormia.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Texto puramente ficcional. Hoje.


Eu estou ciente que muitas vezes me questiono demais. Deve ser coisa de virginiana. Sempre muito metódica, muito analítica, muito preocupada. Tudo segue uma certa lógica. Tudo tem que ter um motivo. Então parece estranho que caminhei com passos tão firmes e prudentes para me encontrar deliberadamente em um espaço perdido. E ainda que eu não saiba onde eu estou e para onde isso vai me levar, eu me sinto à vontade aqui. Eu não sei qual é o propósito. Apenas estou. Mas entendo essa passagem como uma forma de evolução da minha própria intuição. "Parei de pensar e comecei a sentir". E vou me aconchegar nesse sentimento ainda sem nome como me aconchego em teus braços quentes. Vou me permitir aqui ficar porque se há uma certeza nisso tudo é que foram os teus olhos que chamaram os meus naquele breve momento e, desde então, intuitivamente passei a procurá-los pelos corredores. Confesso que estes teus olhos ainda são para mim como um mar desconhecido que me pega com ondas incertas num mergulho tão profundo que dá medo de me afogar. E confesso  que não esperava escrever sobre eles assim tão cedo. Mas o tempo não me assusta mais. Eu disse que seria verdadeira sempre e que qualquer disfarce seria meramente ilustrativo para os outros, pois tudo que senti em tão curto período de tempo só me fez perceber que pouco me importa os outros quando o que eu quero é simplesmente "fazer do teu sorriso um abrigo". Por isso guardarei meus poemas tristes em uma caixinha bem escondida para agora te entregar minhas palavras mais bonitas e sinceras. Não sei nada sobre o amanhã, mas por hoje eu estou aqui. E por aqui pretendo ficar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sofia


Chovia. Já passava de meio-dia. Eram gotas finas e frias, e o cabelo de Sofia estava a cada passo mais molhado. Seu rosto todo estava molhado. Não fosse o fato de estar ligeiramente vermelho ninguém perceberia que estava na verdade chorando. Misturavam-se às lágrimas as gotas de chuva e escorriam. Finas, frias e amargas.
A cada passo ávido em que as solas de suas sapatilhas pousavam sob o chão enlameado para chegar em qualquer lugar (instintivamente a sua própria casa), Sofia repassava em sua mente confusa minuto por minuto daquela fatídica manhã. O susto repentino ao acordar. Pressão estranha no peito. O ato impensado, instintivo e involuntário. Errado? Talvez. Mas o que a intrigava é como ela pôde ter tanta certeza de que havia algo errado. Às vezes até se perguntava se não seria melhor não ser tão sensitiva. Mas como Sofia poderia negar a si própria? Terá sido mesmo apenas coincidência? O dia inteiro havia sido uma bola de coincidências. E não parecia haver motivos precedentes para tais preocupações, pois o dia anterior havia sido tão lindo que ela repousou delicamente em sua cama com um sorriso feliz no rosto. Muito feliz. E veja só: poucas horas mudaram tudo.
Ao chegar em casa, molhada e cansada, constatou (por óbvio) que estava sozinha. Mas, naquela manhã, Sofia estava particularmente mais sozinha que nunca. E em dizer que, poucos minutos depois de chegar, Sofia chegou a vestir uma roupa para voltar, numa tentativa infantil de esquecer as suas últimas 4 ou 5 horas . Desistiu em um rompante de sanidade e falou para si própria no espelho, como se estivesse a ensaiar para uma peça, apontando e gesticulando: "Não importa o quanto você acerte e tente fazer o melhor, haverá sempre um foda-se bem grande para você no primeiro erro. E, como se não bastasse, seu erro irá cobrir todas as coisas que você acredita (e sabe) que não estão no seu devido lugar." Respirou profundamente para segurar o pranto que insistia em retornar, olhou para os pés, levantou suavemente a cabeça e olhou com firmeza no espelho para dizer: "Papéis arquivados como mortos nunca deveriam sair do arquivo."
E, assim, jogou suas coisas no chão e foi se deitar. Ainda sozinha. Apenas um camundongo que acabara de ver passar pelo vão da porta. As lágrimas não mais contidas de Sofia são apenas mais um eco no escuro. E o "tu tu tu" do telefone.


-2008


terça-feira, 12 de abril de 2011

Amizade verdadeira permanece, perto ou longe...



[2008]

"Queria te dizer tudo.

Que todas as palavras te tornassem o que não são neste momento.
Ouvidas.
Todas as linhas que escrevo tem em si uma inconstância do que não é dito.
É dessa impossibilidade de comunicação aparente que falo.

Sei que quando penso tudo transcende
E já não estou aqui.
Como eu já não estou também nesse passado de recordações felizes.
Eu enxergo o presente descontínuo como uma outra forma do real.
Um real imaginário
Metáfora de pensar
Ficção que se torna sonho.
Sonho que se torna imagem
Imagem que se faz palavra e que se encerra aqui neste espaço vazio.
Inscreve-se em mim como que uma ausência.

E tudo mais é saudade
Explosão de sentimentos indizíveis
Na esperança de encontrar o destinatário
Como um rio que corre seu fluxo sem fim.

Você é assim pra mim
A convergência do mundo
Dessa vida que corre
Em ondas intransmissíveis
Eu te chamo
Eu te chamo minha amiga.

E nesse instante estamos unidos.
Eu cá estou eu com você.
E você lá onde já não sei."


[2009]

"Ela sorri.

Desprende-se do resto da vida.
(como se a vida precisasse de "resto")

Ela acorda.
Voam pensares sobre as mais avançadas das máquinas.
Este corpo demasiado humano
que pulsa no centro um coração.

Ela vive esse pulsar.
Rápido e constante.
Que empurra tudo para frente
e mistura as coisas que ficaram para trás.

E lá estou eu
Lá estamos nós.
Todos misturados nesse pulsar
Como se fossemos um só coração.

Maquina que nada.
Somos a vida que brilha intensamente.
Cada manhã.
A cada fim de tarde.
Não nos basta apenas lembrar.
É preciso continuar a pulsar.
Pulsar.
Pulsar."


Essas palavras foram escritas por um grande amigo meu, Raphael Vianna, para mim, através de depoimentos do orkut. Senti que era necessário registrar esses poemas aqui, de uma forma mais segura :)

"Você pensa em mim, eu penso em você".